terça-feira, 8 de janeiro de 2013

De Mago e de Louco...


Não me considero um cara cético. Hoje em dia, quando usamos a palavra "cético", geralmente ela nos remete à alguém que não acredita em absolutamente nada sobrenatural. Então não, cético não. Mas eu sou do tipo "ver pra crer".

Bom, ultimamente eu vi algumas coisas que mexeram com as minhas verdades. E, aviso logo de cara, esse post não vai ter nada a ver com religião. Segue relato, até pra eu mesmo lembrar mais tarde:



Estava eu andando na rua aqui perto de casa quando me deparei com uma carta de baralho no chão. Ela tava ali jogada, virada pra baixo. Nada impressionante, afinal por aqui jogam todo tipo de lixo esquisito na calçada. Curioso como eu sou, virei. Era um 9 de Paus. Carta aleatória, nem me atiçou a curiosidade.



A vida continuou. Alguns dias depois, fui pra uma festa. Fiz cagada, deu o maior fuzuê. Uma experiência digna a seu próprio modo, mas ainda assim uma confusão. Não convém detalhar aqui pra não expor outras pessoas. No dia imediatamente após a tal festa, encontrei outra carta de baralho virada pra baixo, na calçada de uma outra rua também aqui perto de casa. Pensei "se for o 9 de Paus de novo, eu vou ficar muito bolado". Não era. Era o de Espadas. Mas foi o bastante pra eu ficar consideravelmente bolado mesmo assim. O bastante pra eu procurar o significado disso.



Chegando em casa, procurei sites de cartomancia no Google. Encontrei esse detalhamento simples do 9 de Paus:

NOVE DE PAUS — Agitação, envolvimento emocional
Esta carta prenuncia para o consulente o desenvolvimento de uma situação ligada a relações familiares e sociais. Ela não se refere ao amor, pois o relacionamento indicado pelo nove de paus envolve várias pessoas. (...) Se for seguido pelo nove de espadas, ela prepara o consulente para enfrentar muitas atribulações. Mas elas não serão insuperáveis, pois o nove de paus é sempre uma mensagem de realização.

Eu sou um cientista, pelo amor de deus. Eu teria dito que é só um golpe de azar, que é um texto vago e subjetivo que se encaixa com qualquer situação, que isso é história pra espantar gente impressionável. Eu teria dito tudo isso, se a descrição não terminasse com a exata ocasião de a carta aparecer no tabuleiro seguida pelo 9 de Espadas. Isso já é coincidência demais. Me deixou encucado. Encucado o bastante pra tomar cuidado nas próximas aglomerações de pessoas em que eu participei. Natal e Ano Novo em família, principalmente.

O Natal e o Ano Novo foram ótimos, obrigado. Se isso é porque as cartas me ajudaram a evitar uma tragédia ou porque minha família é um amor por natureza, já não importa mais.

Mas a história não acaba por aí. Se acabasse assim tava muito fácil.

Hoje, poucos dias depois do ano novo, estava arrumando uma gaveta pra todas as cartas e pequenas lembranças que eu guardo comigo. Quando, hei que pra minha surpresa, uma carta de baralho virada pra baixo. Eu devo ter guardado porque ela deve significar alguma lembrança pra mim, mas agora não lembro mais o que era. Penso com meus botões "Ma puta que o pariu", respiro fundo e viro a carta. Curingão.




Demorou pra eu achar um site que dissesse o simbolismo do Curinga, porque aparentemente a cartomancia do baralho comum geralmente o exclui. Acabei encontrando um com uma explicação bastante detalhada, mas vou colocar aqui só uma pequena parte:

Simbolismo prático - Significa um potencial latente que cada um de nós possui, e que pode ou não se manifestar ao longo de nossas vidas. Pode parecer a princípio um sinal de ingenuidade, candura ou até mesmo pura palhaçada, mas as surpresas são uma qualidade inerente a esta carta.

Agora, quem lembrar do fim da última previsão que eu tinha lido ganha uma estrelinha.

(...) Mas elas não serão insuperáveis, pois o nove de paus é sempre uma mensagem de realização.

Creio que não tô forçando a barra quando digo que dá pra ver alguma relação aqui.

Uma situação inusitada é uma coincidência. Meia dúzia de coincidências já vira sacanagem. Eu teria que ser cego pra não ver um sistema se formando aí. A história poderia acabar aqui, né? Poderia, mas não acabou não.

Intrigado por todo esse lance de cartas aparecendo espontaneamente por todos os cantos pra falar sobre a minha vida, me senti inspirado pra fazer uma capa do Curinga pro meu perfil do Facebook. Inofensivo, certo? Certo. Escrevi "cards" em um site de imagens. Apareceu uma de tarot que me deixou particularmente curioso. Era bonita e, apesar de já ter visto um baralho tarot antes, eu não me lembrava dela. O Tolo.



Pesquisei sobre O Tolo. Aparentemente, ela deu origem ao Curinga do baralho comum. Nada sobrenatural aí, a semelhança é visível.

Cada carta de tarot tem uma gravura bem específica com um conjunto de fatores com simbolismos próprios. O Tolo não é exceção. Encontrei o simbolismo dele no Wikipedia mesmo, mas em inglês. Segue uma gravura mais fiel à original e uma tradução livre:




O Tolo é o espírito em busca de experiência. Ele representa a sabedoria mística do abandono da razão dentro de nós, a habilidade infantil de nos sintonizar às maquinações internas do mundo. O sol brilhando atrás dele representa a natureza divina da sabedoria e exuberância do Tolo, a 'loucura sagrada' ou 'sabedoria louca'. Nas suas costas estão todas as possessões que ele pode precisar. Em sua mão há uma flor, mostrando sua apreciação pela beleza. Ele é frequentemente acompanhado por um cachorro, às vezes representado como seus desejos animais, às vezes pelo chamado do 'mundo real', mordendo seus tornozelos e o distraindo. Ele está completamente despreocupado a despeito de estar à beira de um precipício, aparentemente à um passo de cair. Uma das chaves da carta é o paradigma do precipício. O Tolo é ao mesmo tempo o começo e o fim, a sabedoria e a loucura, o existir e a inexistência.

Acabou que me familiarizei bastante com o Tolo, gostei dele.
No fim das contas o tarot me encontrou, então eu vou aprender. Começando com um livro e um baralho. Vamo ver no que que dá.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

"Filho, jamais confie em um homem que não bebe."


Você, caro leitor, é um bosta. Todo mundo da sua família também é. A pessoa que você mais gosta no mundo também é. O senhorzinho honesto da vendinha é um bosta. O Papa é um bosta. Eu sou um bosta, diacho.

E isso não é necessariamente ruim. A partir de quando assumimos que são todos cheios de defeitos, a convivência se torna muito mais fácil. Não há uma pessoa sequer perfeita nesse mundo, por mais que se esforce, e negar isso só abre portas pra decepções e mais decepções. Se ofender quando alguém lhe acusa um defeito, principalmente quando, mesmo que lá no fundo, você saiba que é verdade, é perda de tempo. O que custa assumir? Seu acusador também tem um defeito. Vários, aliás. Por que não abrir os olhos?

Parto desse princípio na minha convivência com as pessoas. Por isso as vezes pareço grosso, direto demais, ácido demais. Mas, ora diabo, não existe o ditado "não faça aos outros o que não quer que façam com você"? Por regra de três, é igualmente válido o "esteja a vontade para fazer aos outros o que aceita que façam com você". Não penso duas vezes antes de expor um defeito de alguém, e depois dou a mesma liberdade para a pessoa. Creio que uma existência transparente nesse sentido torna tudo mais fluído, as engranagens do convívio social se encaixam melhor e funcionam mais rápido.

A hipocrisia de fechar os olhos para o desconfortável me enoja. É por isso que sempre tenho dois pés atrás com pretensas pessoas "boas". Se alguém tem um ego tão inflado a ponto de se considerar uma pessoa "boa", ele considera todo um grupo de pessoas a um nível pior que ele. Rola um desprezo aqui, percebe? E essa pessoa "boa" acaba sendo a pior de todas, porque seus defeitos são tabus e suas intenções são sempre as melhores, portanto ela obviamente pode fazer o que quiser.

É claro que há exceções, há pessoas que se contentam em ser como são sem julgar os outros por tabela. Mas, até segunda ordem, tomo cuidado dobrado com todos os pretensos heróis. Religiosos, vegetarianos, sóbrios, honestos, sãos... Um perigo, essa gente.

Nós somos defeituosos por natureza. Cedo ou tarde teríamos que engolir isso.
Mas, no fundo, eu podia resumir tudo isso com um quote:

Filho, jamais confie em um homem que não bebe, pois ele é um tipo  hipócrita, um homem que acha que distingue o certo do errado o tempo todo. Alguns deles são bons homens, mas em nome da bondade eles tendem a causar a maioria do sofrimento do mundo. São os que julgam, os intrometidos. E, filho, nunca confie em um homem que bebe mas se recusa a ficar bêbado. Geralmente eles têm medo de algo muito profundo no seu âmago, sejam eles covardes e tolos ou cruéis e violentos. Você não pode confiar em um homem que tem medo de si próprio. Certas vezes, filho, você pode confiar no homem que, ocasionalmente, ajoelha-se frente a um vaso sanitário. Com sorte, ele está aprendendo algo sobre humildade e sua própria e tola natureza humana, aprendendo a sobreviver a si mesmo. É muito, muito difícil um homem se levar tão a sério quando está deixando suas entranhas em um banheiro imundo.

~James Arthur Crumlye (12 de outubro de 1939 – 17 de setembro de 2008)
The Wrong Case (1975)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Homo sapiens, o onívoro por natureza que todos nós somos."


Caríssimos.
Vim hoje no intuito de escrever um longo, polêmico e prepotente post criticando vegetarianos. Mas, parando pra pensar, acho que posso resumí-lo em uma mensagem de duas orações simples para eles:

Não é o que vocês fazem que tá errado. É como vocês fazem.

Veja bem, eu não estou aqui pra criticar qualquer religião, mas ninguém gosta de mais um tipo de Testemunhas de Jeová. Conversão, por si só, é um tópico extremamente delicado. Perceba, se alguém quisesse se converter a alguma coisa, ele iria atrás disso pessoalmente. Há apenas uma chance em não-sei-quantas-várias de que a pessoa realmente aceite sua crítica agressiva como um novo caminho de vida.

E sim, postar fotos no Facebook de filhotes de animais dilacerados pendurados pelo pescoço em um gancho industrial enquanto pingam sangue e acusar todos os comedores de carne de monstros insensíveis é uma abordagem agressiva. E, sejamos sinceros, abordagens agressivas automatica e naturalmente levam a posturas defensivas.

Façamos um rápido experimento mental pra provar esse ponto, sim?
Imagine um cenário-base em que você está de humor neutro caminhando em uma rua neutra em um dia neutro. Agora, imagine duas situações possíveis recorrentes:
  1. Uma conhecida recente aproxima-se com um gentil sorriso e uma expressão ligeiramente preocupada, mas ainda assim compreensiva no rosto, e diz "Com licença, eu posso ter um momento de sua atenção? É que você tá usando camiseta azul, e eu tenho um trauma antigo a respeito de... bla, bla, bla."
  2. Uma mulher furiosa que você mal conhece chega gritando, cuspindo atrocidades e apontando o dedo na sua cara enquanto grita "MALDITO AAAAZUUUUUUULLWUUAWIRWARAWRRRRRR"
Ok, eu admito que a situação e o trauma foram um pouco aleatórios, mas deu pra entender. O ponto é que uma postura mais agradável faz completa diferença na boa-vontade do ouvinte, e isso pode te levar longe se o que você pretende é ser compreendido ou, se for mais ousado, conversão.

Se todo mundo entendesse esse princípio simples, teríamos um mundo bem menos estressante para aguentar.
Isso vale para vocês vegetarianos e vegans, todas vocês garotas nerds feias (sim, porque as feias tendem a ser bastante revoltadas. As bonitas, convenhamos, só tão nessa pela atenção), para os que foram mimados a vida inteira e não sabem como pedir algo e, principalmente, pra vocês malditos zumbis de Humanas bitolados e hipócritas.

Sim, eu tenho um trauma com os zumbis de Humanas, ou humanazóids, como gosto de resumir. Perceba que com isso não me refiro a toda e qualquer pessoa que curse Humanas, só a uma boa parte delas.

...

Aliás, tá aí um assunto divertido: Humanazóids.


Sabe aquele cara que quota frases e leis esquisitas na internet, fuma cigarro, maconha (apenas "ocasionalmente"), distribui convites de Eventos de passeatas, é todo cult, detesta o sistema, o governo, a polícia, a própria família e a Humanidade em geral, com exceção dele mesmo e possivelmente alguém que concorde com ele ou que ele queira pegar? Então...

(Parando pra ler agora, isso tá muito parecido com os hipsters. Bom, não é a toa que eu não vou com a cara dos dois grupos. Malditos adolescentes...)

... Então, isso é um humanazóid. Eles se acham verdadeiros paladinos da luz, reclamando sobre o que tá errado e as vezes até fazendo algo para lutar contra (mas em geral só reclamando mesmo). Toda e qualquer pessoa que aja ou pareça agir contra seus sagrados princípios é, aos seus olhos, um "maldito ignorante tragado pelo sistema".

Humanazóids em geral são jovens como qualquer um de nós. Eles gostam de sair e se divertir, tem um instinto de rebeldia inato e querem aparecer. A diferença é que encontraram um jeito um pouco mais pretencioso que a média pra fazer isso, que particularmente me tira do sério.

Não é a toa que os chamo de Humanazóids. Essa curiosa e hedionda raça costuma brotar entre os estudantes de cursos universitários de Humanas (de faculdades públicas, em sua maioria). Se dividirmos o mundo da maneira simplória e maniqueísta como eles vêem (ou seja, separando entre bem e mal), podemos separar os cursos de Humanas entre os cursos do bem e os cursos do mal.

Nossos auto-proclamados paladinos, obviamente, nascem dos cursos do bem: História, Filosofia, Ciências Sociais, Psicologia, Artes Cênicas, Letras, etc.

Caso esteja se perguntando sobre os cursos do mal, basta pensar em ternos.
Direito, Relações Internacionais, etc.

O que mais me irrita nos Humanazóids é a sua falsa-inteligência. De repente, porque leram um ou outro livro sobre filosofia ou comunismo, eles acham que alcançaram a iluminação absoluta e, a partir daquele momento, se tornaram Power Rangers.
Não consigo entender como alguém que ainda separa o mundo entre "gente do bem e gente do mal" pode se declarar genial o bastante pra 'consertá-lo'.

Bom, peço que não interpretem esse post como um grito de revolta. Fazia tempo que eu não postava nada, daí resolvi criticar alguém ou alguma coisa. Isso sempre rende.
Da próxima vez posso falar sobre minha recém-adquirida revolta a espíritos pobres e espíritos ricos (cheguei a conclusão de que só gosto de espíritos classe média) ou, sei lá, sobre a opinião que venho formando a respeito do meu curso. Também são assuntos que prometem render um pouco.

Aproveitando, aquele beijão pra quem ainda tira alguns segundos do seu tempo pra ver se tem post novo nessa velharia. Vocês são uma graça, gente!