quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Foi um milagre, somos vitoriosos." leia relatos do drama no Rio

Oi, garotão. Eu posso ter um minutinho só pra te contar minha história?

Eu sentei na calçada do lado do cara pra ouvir a história dele.

A enchente pegou minha casa, levou tudo...

Minha casa tem estado cheia ultimamente. Minha família tava reunida em volta do computador assistindo um vídeo que uma prima indicou.

Ah sim, graças a deus tá todo mundo bem.
Eu, minha mulher e minhas três filhas tamo vivendo de favor na casa de amigos, sabe. Indo de um lugar pro outro...

O vídeo era sobre uma senhora presa em casa com os três cachorros. A última sobrevivente. A água corria arrastando tudo em volta dela. Tava completamente ilhada.
Uns caras do terraço do prédio ao lado lançaram uma corda. A mulher, totalmente apavorada, foi se amarrando com ela. Ela tentou amarrar um cachorro junto, mas alguém ficava gritando pra ela esquecer o bicho. Soltar ele e se preocupar com ela.

Eu tô querendo um pouco de leite, cara. Leite Ninho pras crianças. Quantas latas você puder dar já ajuda, saca. Eu não sou de pedir não, ó. Tô com as minhas coisa aqui, tá ligado? Eu vendo, faço minha vida. Mas a situação é que eu tô num baita perrengue!

Por fim estavam puxando a mulher. A água acabou pegando ela no caminho. Eram uns dois ou três caras num verdadeiro cabo de guerra contra a correnteza. Ela levou um cachorro no colo mas, quando a água bateu, levou ele embora.
As calças daquela senhora caíram enquanto eles levantavam. É como se, como se não estivesse ruim o bastante, ela também tivesse que ser humilhada.

Ah, aqui na farmácia vende, pô.

A mulher foi salva. Puxaram ela até o terraço. No fim do vídeo, a câmera dá um close num último cachorro, que sobrou em meio ao desastre. Latindo ali e abanando o rabo, no meio de toda aquela água marrom correndo. É uma coisa bem triste.

Você quer trocar essa grana? Dá aqui. Cuida das minhas coisa.

Passou na TV a história de um cara que, quando foi salvo em meio a enchente, negou a carona dos bombeiros até um lugar seguro e decidiu por se voluntariar. Enquanto ele ajudava eles nos resgates, recebeu a notícia de que a sua família inteira havia morrido soterrada, perto dali.
Ao invés de ter um ataque, entrar em choque ou algo assim, ele passou o resto do dia continuando nos resgates. Ele queria evitar que outras pessoas sentissem a mesma dor que ele.

Cara, brigadão. Deus te abençoe, irmão. Você não imagina o perrengue que eu tô passando.

De fato, eu não imagino.

Eu não gosto disso, cara. Eu não gosto de ficar aqui, pedindo as coisa. Eu bebi álcool. Não vou mentir pra você, tô cambaleando aqui, entendeu? Enchi a cara.

Aquele homem tirou sozinho o corpo da mulher e da filha dos escombros da casa. Ele recolheu o que ainda dava pra aproveitar e chorou ali. Quando o repórter perguntou o que ele faria dali pra frente, ele disse que tinha que continuar ajudando, lutando pelos outros. Falou que é isso o que as pessoas tem que fazer, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
O repórter largou o microfone de lado e chorou.

Eu saí de casa as dez da manhã, minha mulher falou "tá saindo?", e eu falei "tô indo pra cidade". Cheguei aqui as quatro. Tô aí, pedindo ajuda. Uma lata de leite, qualquer marca. Tenho que lutar pra fazer isso pelas menina de casa, né.

Tá certo, eu também faria a mesma coisa.

Cara, você é firmeza! Você é firmeza!

Ele me abraçou. O cheiro de álcool impregnaria em mim pelo resto do dia, mas eu abracei ele também.

Vai, escolhe alguma coisa aí. Eu faço questão. Não sou de pedir esmola, cara. Eu quero te dar uma dessas paradas em troca. Olha, esse preto aqui combina com você. Você curte rock, né? Você tem cara.
Ah não? Sério? Haha, saquei. Então você quer esse aqui?

Eu tava lendo histórias de sobreviventes na internet. Pessoas que perderam tudo, menos a vida. Pessoas que, numa só noite, perderam quase a família inteira. Mãe, pai, irmão, filho, tia, cunhado, sobrinho...
Histórias de heróis. Pessoas que arriscaram o que tinham pra salvar desconhecidos. Uns ajudando os outros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. É a esse tipo de história que eu me refiro quando estou defendendo a humanidade numa discussão com uma pessoa que já perdeu a esperança nela.

Você trabalha? Hah, então eu vou amarrar de um jeito que só vai sair quando você terminar a faculdade. É que tem dois jeitos de amarrar, né. O outro sai, e esse não sai. É pra quando o cara trabalha e tem que tirar e tal...

Eu gostei do presente. Indiretamente, é uma lembrança sobre essa tragédia, mas também das histórias que surgiram junto com ela. Vai me lembrar, pelo menos até o fim da faculdade, de porque eu gosto tanto desses monstrinhos devastadores que todo mundo critica. Esses humanos.

4 comentários:

SongSong disse...

Esse é o tipo de pessoa que faz a gente ter esperança no tão falado "mundo melhor", não é?

Espero que você continue lembrando mesmo depois de terminar a faculdade.

Fabricia Marques disse...

Eu não sei mais quantas vezes já chorei essa semana, bom mais uma vez.

Anônimo disse...

Que bom poder conhecer você..

Anônimo disse...

E tudo isso acontece do seu lado. Lágrimas se acumulam nos meus olhos.