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domingo, 26 de janeiro de 2014

Bacon, dois, quatro, pisa pisa pisa.

Estou sozinho. Minhas pernas ainda cansadas da escalada da noite anterior, minhas botas furadas. O lugar é um dos meus bares preferidos na cidade. Ali você encontra pessoas das mais variadas idades e caras, é um ótimo lugar pra ser você mesmo. A entrada não tem placa ou nome algum piscando, se resume à um muro sem graça com alguém sentado na porta. O interior é um buraco escuro embaixo de um hostel barato. Paredes de tijolo à mostra, alguns panos no teto de madeira escondendo o estrago que os cupins fizeram outrora. Mesas de sinuca antigas, rock de bom gosto tocando. Uma televisão muda no canto passa em close-caption documentários sobre aventureiros, alpinistas, gente interessante. Uma entrada nos fundos com cortinas de açougue separa do próximo ambiente, igualmente escuro mas com ar-condicionado e música mais barulhenta. Cerveja, só em dinheiro.

Eu cheguei mais cedo que o resto. Ainda é cedo, o bar está relativamente vazio. Eu posso pegar uma mesa sem ter que negociar com ninguém, pra variar. Compro minha cerveja, vou beber no gargalo. Pego a mesa que fica bem no meio do salão. A luz da lâmpada de ferro pendurada balança lentamente, iluminando os vários rabiscos que muleques bêbados fizeram na mesa com o giz. Arrumo as bolas, posiciono a branca em cima do ponto de início, onde riscaram um A dentro de um círculo. Dou a primeira tacada. A bola passa por cima de um pentagrama gloriosamente torto e mal-feito e encaçapa uma de cara. Bom sinal. A noite começou bem.

O legal de ser horrível em sinuca é que jogar sozinho se torna uma experiência emocionante. Um jogador decente simplesmente passa o tempo, relaxa ou se entedia enquanto encaçapa cada bola em cada tacada. Mas quando estou jogando, eu posso perder sozinho. Eu contra meus próprios demônios. Cada erro é um ponto pra eles. É isso o que sempre fizeram, se alimentando dos meus deslizes. Eu tenho todo o tempo do mundo pra planejar cada tacada, mas minha mão nem sempre me ajuda, muito menos meus olhos míopes. Sem jogar, meus demônios encaçapam impiedosamente.

Eu ganho a primeira. Na segunda vez, encaçapo a última bola ao mesmo tempo que a bola branca se suicída. Considero um empate. Na terceira vez, eles ganham com uma facilidade revoltante.

Eu me concentro. Compro outra cerveja. Preciso ganhar uma pra empatar, afinal um empate é o mínimo que se espera de uma pessoa jogando contra ela mesma. Sozinho em um bar escuro, perdendo pra minha própria habilidade miserável, me dou conta de minha insignificância. A sinuca se tornando um interessante exercício de humildade, conforme eu noto que mal sou capaz de lidar com meus próprios erros. Me pergunto se eu já sabia disso e só estava me lembrando, ou se acabei de aprender. Me pergunto se é um momento razoavelmente justo, ou se deveria ter sido mais cedo. Penso em me comparar com outras pessoas, mas o exercício por si só me ensina a não fazer isso. Eu perco de novo. Três pra eles, um pra mim, um empate.

Eu coloco outra ficha, arrumo as bolas. Vai ser um longo caminho até eu alcançar a pontuação dos meus demônios internos, mas tenho paciência. Preparo pra primeira tacada, ajeito os óculos, respiro fundo. Mas um rosto conhecido me faz interromper o movimento. É o Panda, virando o corredor e se aproximando. É isso, nosso acerto de contas tem que ficar pra mais tarde.

Inevitavelmente, perco pra ele também. É, um exercício de humildade.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Para uns, aquilo era pra chamar atenção.

Para outros, era apenas mais uma criança bagunceira. Uma mancha de chocolate no banco do carro, um chiclete grudado na carteira da escola, um desenho a giz no meio da rua... Para ele, era simplesmente uma necessidade de deixar marcas por qualquer lugar que passasse. Uma dedada no bolo de aniversário, um risco na capa do caderno de alguém. Qualquer coisa servia.

Conforme cresceu e amadureceu, apenas deixar qualquer marca não o satisfazia mais. Ele não seria lembrado. Assim como a história da árvore que cai sem ninguém ver, de nada adiantava ele deixar sinais se ninguém saberia.
Então ele começou a deixar coisas que as pessoas realmente lembrassem. Uma gorjeta um pouco maior para o garoto do semáforo, um presente melhor elaborado para o aniversariante, um sorvete para a menina bonita... E ele viu que, fazendo coisas realmente agradáveis, as pessoas se lembrariam melhor. E ele viu, para o seu espanto, que não precisava deixar sinais materiais. Acompanhar uma senhora até o seu destino, abraçar um homem doente, ouvir os problemas da menina bonita, ouvir os problemas da menina feia...
E ele era sempre lembrado por onde quer que passava.

E ele foi crescendo. E, junto com ele, cresciam seus sinais. Um carro novo para a mãe, o financiamento de uma nova ponte, a fundação de uma instituição beneficiente...
E ele também deixava marcas aparentemente pequenas, mas que para ele eram de vital importância. Jogar damas semanalmente com os idosos da praça, estacionar o carro de alguém numa vaga difícil, comprar um peixe para o aquário do sobrinho.

E ele foi ficando cada vez mais velho. Agora muito sábio, preparou-se para deixar seus últimos sinais no mundo.
Ter um filho...
Repassar o segredo de seu sucesso...

Ensiná-lo que os sinais não precisam ser materiais.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Lembra se puder...

Com muita frequência lembro dos meus sonhos. Gosto de pensar que isso duplica meu tempo de vida, já que se eu não lembrasse deles o tempo em que eu estou dormindo passaria em branco.
Muitas vezes eles são conectados, muitas vezes em um sonho eu tenho memória de outros anteriores mas não lembro do mundo real. Aliás, meus sonhos são uma grande parte de mim que eu contei com detalhes pra poucas pessoas.
Essa é uma história que alguém me contou num sonho, do jeito que consigo me lembrar agora. Enquanto ele contava, a história se passava diante dos meus olhos:



Um pai tinha um filho cego e uma filha com visão normal. Acho que o cego era mais novo, mas não tenho certeza. Ele passou por uma vasta planície laranja com eles. Tão vasta que era difícil ver o fim. Como um oceano de grama alta.
Lá, a filha perguntou:
- Pai, como você não se perde por aqui?
O que ele respondeu me escapa da memória agora, mas acredito que era importante.

Um dia, o pai precisou se separar dos filhos e ir sozinho praquela planície. Em meio a tristeza da separação, a filha perguntou:
- Pai, e se a gente precisar de você enquanto você está fora?
- Vocês são perfeitamente capazes de se virar sozinhos enquanto eu estou fora, meus filhos. Mas, se precisarem de mim, eu tenho certeza de que conseguirão me encontrar.

O pai foi embora e o tempo passou. Em determinado momento, os filhos precisaram dele. Eles saíram para procurá-lo e se depararam com a grande planície.
A filha não sabia o que fazer e sentou para chorar.
Mas o filho não. Ele puxou seu violão e começou a tocar serenamente. O tempo passava e o braço dele cansava, mas ele não parava de tocar.
- Por que você tanto toca, irmão?
- Se eu tocar bastante, a música vai chegar no nosso pai e ele nos encontrará.

A filha achou isso muito bonito, mas se encheu de tristeza. Como o seu irmão era cego, ele não sabia quão vasto era aquilo tudo. Ela tinha certeza de que o pai nunca os ouviria.
Porém, a planície era muito silenciosa.



Eu não lembro o fim da história, mas lembro que ele era feliz a seu modo. Tinha uma lição muito bonita que eu tenho certeza que aprendi, mas não consigo lembrar agora.
Esse sonho eu tive a muito tempo. Eu lembrei dele porque, agora há pouco, deitado na cama, tive um sonho de alguns segundos em que esse garoto cego tocava na planície. Quando essas coisas acontecem é melhor registrar logo porque sonhos não costumam durar muito tempo na memória recente se você não passá-los rápido pra memória a longo prazo.

Desculpem se esse post não fez muito sentido.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

To find the stories that we sometimes need

Pronto, eu tenho um plano.
Sim sim. Eu, aquele muleque que nunca tem nada sob controle, tenho um plano.
Um plano de um ano, que vai revolucionar minha vida pra sempre e vai me permitir não ter que fazer planos por um bom tempo.
Mas pra dar certo dessa vez, eu preciso me concentrar. Vou ter que sacrificar um monte de coisa pra ir com isso até o fim, mas fazer o quê? Tudo tem seu preço.

Não, eu não vou deixar ninguém no suspense. O plano é passar em Oceanografia. O curso vai ser em algum litoral. Depois de formado, eu terei meu próprio barco e nenhum emprego fixo. Isso é que é vida.
E, olha que emocionante, quando chegar o fim do mundo em 2012, vou ser um dos primeiros a dançar. :D
Isso significa um ano de estudos quentes e abolição de várias atividades rox. Mas é isso, preciso de foco. Também significa ficar longe dos meus amigos e de grande parte de tudo o que eu conheço. Mas eu volto pra visitá-los, com certeza.

Não sei se tenho mais de um leitor nesse blog (oi Dok!) mas, em todo o caso, esse post vai ser grande. Espero que o meu leitor solitário tenha paciência pra ler tudo (ok Dok?).
É uma série de contos que eu escrevi nas férias, deixei salvo como Rascunho e esqueci de postar.


Esse é o conto que eu prometi em outro post. Aquele que eu li num livro de contos e achei muito legal. Ele chama

Tudo está bem quando acaba bem.
Era uma vez um casal. Eles eram bem velhinhos e moravam num vilarejo pobre, um pouco longe do mercado.
Eles não tinham muito dinheiro, e todo o seu sustento vinha de um cavalo magro e velho que eles utilizavam em sua pequena plantação ou emprestavam aos vizinhos em troca de alguns trocados.

Um dia, logo após o café-da-manhã, a velha disse:
- Meu velho, vá ao mercado vender esse cavalo. Ele está ficando velho e logo irá morrer e nos dar prejuízo.


O velho então concordou e prontamente saiu com o cavalo.
No caminho, ele viu um fazendeiro vindo do lado contrário com uma vaca.
"Se eu conseguir trocar este cavalo por aquela vaca, a velha com certeza vai ficar muito feliz. Nós teremos leite fresquinho toda manhã!", ele pensou.

- Com licença, rapaz. - Disse o velho. - Você não quer trocar essa sua vaca pelo meu cavalo?
- Ora, mas é claro! - Disse o fazendeiro, que sairia ganhando muito mais com o cavalo do que com a vaca.

Ia o velho caminhando feliz com a vaca pela estrada de terra quando deu de cara com um homem e sua ovelha. Ele pensou consigo mesmo:
"Ora, mas uma ovelha vai me valer muito mais que uma vaca! Vamos tosar sua lã regularmente e, quando o inverno chegar, eu e minha velha teremos roupas quentinhas para nos aquecer. Ela ficará muito feliz, com certeza!"

- Ei, meu jovem. - Ele disse. - Você gostaria de trocar essa ovelha pela minha vaca?
- Puxa, você tem certeza? - Disse o jovem.
- Mas é claro. Creio que eu e minha velha estaremos bem melhores com uma ovelha, ao invés de uma vaca.
- Ora, então está bem.

E eles trocaram.
Ia o velho chegando no mercado com sua ovelha, quando viu um homem passando com um belíssimo ganso na coleira.
"Ora, mas que ganso gordo e bonito!", pensou o velho. "Se eu levar esse ganso para casa, poderemos engordá-lo mais ainda e, ao fim do ano, teremos um maravilhoso ganso assado! A velha ficará exultante, com certeza!"

- Com licença, você gostaria de trocar esse ganso pela minha ovelha? - Perguntou o velho.
- É pra já! - Disse o homem sem pensar duas vezes, pois sairia ganhando muito mais com uma ovelha do que com um ganso.

Mal havia o velho trocado o ganso, quando viu uma galinha muito engraçada num poleiro do mercado. Ela cacarejava para os que passavam, mas não saia do lugar.

- Minha nossa, que galinha engraçada! Minha velha com certeza se divertiria muito com ela. Vendedor, você não gostaria de trocá-la pelo meu gordo ganso?
- Puxa, mas que barganha! É claro que sim!

Satisfeito, o velho ia voltando para casa com sua galinha. No meio do caminho, parou para descansar numa taverna no meio do caminho. Lá, haviam estrangeiros. Ricos franceses que conversavam alto numa mesa enquanto tilintavam sacos de moedas.
Um deles se enturmou com o velho e acabou sabendo sua historia.

- Minha nossa! Então quer dizer que você começou o dia com um cavalo e está voltando com uma galinha? A sua esposa com certeza vai ficar furiosa! - Disse o francês, com seu sotaque afetado.
- Mas é claro que não. A velha com certeza ficará muito feliz com a galinha. Ela é engraçada e bota ovos! Tudo ficará bem, você vai ver.

Duvidando, os franceses fizeram uma aposta com o velho. Eles trocariam a galinha por um saco de batatas velhas, e o velho voltaria com as batatas para casa. Se a velha ficasse revoltosa, os franceses iriam embora com a galinha. Se ela ficasse satisfeita, eles dariam ao velho o equivalente em ouro do peso das batatas, além de devolver sua galinha. Com a certeza de que ganharia, o velho aceitou a aposta.

Ia voltando ele com os franceses quando a velha avistou-os:
- Meu velho! Você já está de volta, que alegria! Chegou bem a tempo para o jantar.
- É muito bom estar de volta, minha velha.

E eles se abraçaram calorosamente.

- E o cavalo, o que fez com ele? - Ela perguntou.
- O cavalo eu troquei por uma vaca.
- Ora, que maravilha! Com uma vaca, teremos leite fresco todos os dias para nós e para venda! Puxa, que troca maravilhosa!
- Mas eu não fiquei com a vaca. A vaca eu troquei por uma ovelha.
- Puxa, mas isso também é maravilhoso! A ovelha, além de também dar leite, nos dará lã para mantêr-nos quentinhos durante o inverno. Meu velho tem sempre a razão! Ele pensa em tudo!
- Eu também não estou com a ovelha. Eu a troquei por um gordo ganso.
- Ah, mas você sabe que eu amo carne de ganso! Com o tempo poderemos deixá-lo ainda mais gordo, e eu farei um cozido caprichado para nós dois. Ah, mas que belezura!
- Mas o ganso eu também não tenho mais. Eu o troquei por uma galinha engraçada.
- Ah, é aquela galinha do mercado? Nossa, mas eu sempre me divirto tanto com ela. Será muito bom tê-la aqui conosco. Ela irá cacarejar para todos os passantes, além de nos dar ovos! Nós poderemos fazê-la chocá-lo e teremos mais galinhas, que poderemos fazer chocar mais ovos e em algum tempo teremos uma granja! Puxa, mas que ideia maravilhosa! O velho pensa em tudo.
- Mas a galinha eu dei a esse grupo de franceses. Em troca, eles me deram este saco de batatas velhas.
- Ah, mas que coincidência! Pois hoje mesmo eu ia cozir algumas batatas para o jantar, quando notei que não tínhamos o bastante. Eu fui pedir a Maria das Flores, aquela mesquinha filha do farmacêutico, e ela disse que não tinha o bastante nem para ela mesma. Agora ela vai ver! Com essas batatas, eu vou poder fazer o nosso jantar, e irão sobrar algumas para eu levar para ela amanhã. Ela com certeza vai ficar com a cara no chão, hahaha!

Espantado, um francês falou:
- Mas o seu marido saiu de casa prometendo vender o cavalo e voltou com um saco de batatas velhas! Você ainda está satisfeita mesmo assim?
- Ah, minha criança. - Disse a velha. - Você não entendeu? O velho tem sempre a razão! Além disso, tudo está bem quando acaba bem.

Espantados, os franceses lhes devolveram a galinha, além de dár-lhes um saco de ouro com o peso das batatas. E partiram com os bolsos um pouco mais vazios, mas com uma lição e tanto para o resto da vida. Tudo está bem quando acaba bem.




É mais ou menos assim.



Um ser que prezava a transformação, a instabilidade, a liberdade de ser o que quiser quando quiser.
Num estralar de dedos, era um músico famoso internacionalmente. Num outro, era só uma estátua esquecida em meio a uma praça silenciosa.
Quando estava muito sentimental, era uma mulher. Quando queria recuperar a razão, era um homem.
Tomado por sede de diversão, o ser era um deus, dono de tudo. Tomado pela curiosidade, ele era tudo, um pouco de cada.
Ele era a menininha bebendo suco na esquina. Ele era um suco. Ele era uma esquina. Ele era um verbo. Beber.
O ser era o que quisesse, quando quisesse. Ele achava que era perfeito. Superestimava ao extremo suas infinitas capacidades.

Mas ele jamais seria estável. Jamais seria confiável.


Ontem eu vi uma pessoa interessante no shopping. Era um homenzinho velho, bem vestido, de cabelos grisalhos e uma bengala. Estava estático, encarando o vazio. Ele me disse que seu sonho desde pequeno era andar em todos os meios de transporte existentes. Eu perguntei a ele se estava lutando para realizá-lo, e ele me mostrou uma lista eletrônica em seu palmtop.
A lista era enorme, e nela estavam todos os meios de transporte existentes na atualidade. Eu ia passando pelos itens riscados enquanto ele me contava várias historias.
Ele já havia cavalgado lhamas nas montanhas, camelos e dromedários no deserto, elefantes, bois, cavalos... Golfinhos.
O homem levou semanas treinando em um circo para aprender a pilotar um monociclo. Correu em bicicletas de um, dois, três, quatro, sete bancos. Pilotou motos, lambretas, carros antigos, carros novos, carros de fórmula um e até tanques militares.
Ele vôou em monomotores, planadores, asadeltas, helicópteros e jatos.
O velho havia gasto uma década de sua vida estudando e se preparando para ser aprovado numa missão espacial que o levou a uma viagem de foguete pelo espaço.
Eu não conseguia pensar em qualquer tipo de meio de transporte sem que ele tivesse uma historia sobre ele.

Até que cheguei ao fim da lista, onde havia um item ainda não riscado. Um único transporte que aquele homem fantástico jamais pisou. Então eu entendi porque ele estava ali parado. Ele não estava encarando o vazio coisa nenhuma, mas a escada rolante a nossa frente.

Eu o incentivei a ir em frente e tomar a iniciativa que completaria a sua vida, mas ele estava inseguro. O velho ponderava sobre os perigos de uma escada rolante. Ele dizia que não se deve confiar numa viagem curta só porque ela é curta. Ele contava sobre as terríveis historias de pessoas que perderam os pés, ou até metade do corpo, engolidas por escadas rolantes famintas.
Eu podia notar que o velho suava frio.


A escada estava logo ali, totalmente vazia, rolando como nunca. E o velho não avançava. Eu dizia que seria simples. Tudo o que ele devia fazer era se manter no meio da escada e lembrar de dar um passo quando chegar ao final. Ele tremia, balbuciava frases sem muita coesão.

Então eu percebi. Não é da escada que o velho tinha medo. Ele tinha medo de completar a lista. Medo de não ter nada depois disso. Percebi que era um pavor totalmente plausível, esse que ele tinha. Era medo de perder o propósito.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O velho tem sempre a razão.


Hoje eu li uma historia num livro de contos de fadas. Nunca tinha ouvido antes, achei muito bonita.
Chama-se "Tudo está bem quando acaba bem"



Qualquer dia eu conto.

domingo, 29 de março de 2009

Imagine all the people... I wonder if you can.

O muleque era famoso em todas as escolas e em todos os shoppings por bater em pessoas. Quando bem entendia, pelo motivo que quisesse, ele sabia como arranjar as melhores encrencas. E não era só escolher alguém a dedo e dar-lhe uma bifa, não. Pra brigar, ele queria que o alvo estivesse esquentado, sob pressão, no ponto. Ele provocava.

Gastava noites em claro descobrindo detalhes sobre a vida de seus alvos para então provocá-los onde dói. Um garoto como esse poderia usar suas capacidades investigativas para outras coisas, mas ele nasceu pra isso. Ele encontrava as feridas e enfiava a mão inteira nelas enquanto babava de prazer.

Haviam dois meses que ele e sua gangue pessoal estavam investigando um rapaz franzino, um tal metido a clubber. Já era normal ele descobrir casos delicados ou vergonhosos sobre suas vítimas e judiá-las de forma bestial e imortal. Seu senso de ética havia já há muito tempo ido para o lixo junto com seu primeiro taco de hockey quebrado.

Essas últimas semanas em especial o mantiveram muito ocupado, por isso ele deixou a investigação para o seu melhor amigo e braço direito.

No dia escolhido, eles estavam lá. O muleque não sabia exatamente qual era o ponto-fraco encontrado e como eles iriam aproveitar-se dele, mas estava preparado para tudo.

- É assim, Rock. Toda noite ele vem aqui com a irmãzinha paraplégica visitar o túmulo da mãe. Quando eles tiverem voltando o Bola vai dar um xaveco nela muito zuado, até ele ficar tipo, muito puto. Aí quando ele partir pra cima do Bola a gente chega e parte pra cima dele. Se precisar, a gente imprimiu essa parada aqui pra ajudar também.

O parceiro mostrou uma montagem imprimida. A imagem consistia em duas mulheres curtindo um aparentemente prazeroso sexo homossexual, exceto pela parte em que suas cabeças foram substituídas por uma menina cabisbaixa e uma senhora de meia-idade, provavelmente a mãe do jovem clubber.

Contrariando todas as expectativas, Rock pega a montagem e rasga em vários pedaços. Ele já havia feito coisas que os padres e monges mais fervorosos do mundo jamais poderiam perdoá-lo, mas isso estava muito além de seus padrões. Ele sabia que seus colegas só fizeram isso pois esperavam que ele fizesse todo o trabalho sujo.

Sob o olhar perplexo de sua gangue, Rock espuma de raiva enquanto grita em alto e bom som, chamando a atenção de qualquer possível passante por aquelas ruas atrás do cemitério.

- Vocês tem tudo é que se foder! - ele berra entre outros desaforos - Eu não vou bater nesse cara nem fodendo, e ninguém aqui vai também. Se quiserem, podem vir pro pau porra!

Sem pensar duas vezes, Rock saca seu soco inglês e parte pra cima de seus outrora amigos que se provaram absolutamente nojentos de uma hora para outra. Apesar do sangue frio e talento do garoto, a desvantagem numérica fez com o que ele tomasse a maior surra de sua vida, além de sua primeira derrota.

Foram dois policiais que pararam a briga.
Após levarem a gangue inteira para a delegacia e ouvirem todos os depoimentos, sobrou para o delegado resolver o destino dos garotos. Em cidade pequena ele costuma dar a palavra final para quase todos esses assuntos.

O delegado manda ligarem para os pais de todos eles e direcioná-los ao conselho tutelar, com exceção do maior. O Rock.

- Mas delegado! - diz um corretíssimo pai de família que coincidentemente se encontrava no local - O garoto está tão errado quanto todos os outros. Ele se encontrava em meio a calcatrua e deve ser penalizado assim como eles.

- Você diga o que quiser, meu caro. Mas eu não vou penalizar este garoto por lutar pelo que é certo.

De fato, ele não o fez. Posteriormente o delegado leva o garoto para a casa de uma conhecida aposentada que já foi enfermeira e manda cuidar-lhe. Uma lição de moral, uma carona pra casa e Sebastião, o delegado, jamais verá o garoto de novo.

- Eu levo o caso a justiça, delegado! - o homem já estava indignado.
- Leve então.

Ele tentou.
Carlos, pai de dois filhos, um menino e uma menina, casado com uma linda e corretíssima mulher administradora, é um homem de muito sucesso profissional e cheio de boas intenções. Da sua casa no bairro mais nobre da cidade ele manda e-mails para a redação de diversos jornais protestando contra o terrível sistema judiciário que não funciona, a fome mundial e o descaso de tantos. Semanalmente ele viaja terríveis dez quilômetros de ruas populares esburacadas para reciclar o lixo de sua residência e, de quebra, deixar um bolo para a Entidade de Crianças Aleijadas da qual se apadrinhou. Mas, apesar de tão bem informado e vivido, ele jamais levou qualquer caso a lugar nenhum, quanto mais a justiça.

Após visitar vários sites informativos e fazer alguns telefonemas, ele finalmente encontrou um advogado renomado que poderia cuidar do caso a um preço justo e eficiência garantida. Aliás, Carlos ofereceu pagar o triplo do preço a Agência de Direito para ver a justiça sendo feita.

Mas, após as devidas apurações e coletas pessoais de informação, Tobias não aceitou o caso.

- Você vai me desculpar, senhor Carlos, mas eu me recuso a levar uma ação contra o homem que defendeu o garoto que lutou pelo que achou certo. Isso vai contra meus princípios pessoais e eu espero mesmo que o senhor não se sinta ofendido pela minha recusa.
- Mas é claro que eu fiquei ofendido! Aceitar o caso não é uma obrigação dessa tal Agência que você trabalha?
- É sim senhor, mas isso não me importa no momento.
- Eu vou falar com o seu chefe, rapaz. Seu emprego já era.

Homem prevenido que é, Tobias imediatamente picotou e jogou fora todos os documentos referentes ao caso. Ele esperava que isso silencia-se o problema.

Com efeito, Carlos procurou o chefe da Agência de Direito. Não conseguiu falar diretamente com ele, mas encaminhou o caso para sua secretária, que prometeu cuidar do assunto.
Mas a verdade é que assuntos como esse nem chegam ao ouvido do chefe. Numa Agência tão grande os problemas diários são tantos que cada tipo de reclamação já é pré-direcionada a um tipo de resolução. Nesse caso, um administrador específico seria mandado para averiguar o problema e, provavelmente, cuidar da demissão do advogado acusado. Aconteça o que acontecer, é importante manter o nome da Agência limpo.

Rosane é casada com um homem rico, bem-sucedido e cheio de boas intenções. Ela possui dois filhos, mora no bairro mais nobre da cidade e não precisa passar semanalmente por ruas populares esburacadas para entregar bolo por aí, pois seu marido já faz isso por ela.

Por outro lado, Rosane tem seus princípios.
Ao entender toda a situação e somar a isso a aficção clara de seu cônjuge para com uma coisa tão tola, sua personalidade feminina englobou-a numa revolta absoluta. Revolta essa que resultou no insensato ato de entrar batendo o pé no escritório do chefe gritando:

- Eu não vou demitir esse homem! As ações dele vão totalmente contra os valores da Agência e o protocolo é claríssimo requisitando sua demissão, mas eu me recuso terminantemente a ser esse carrasco. Ele fez o que achou correto, e eu vou seguir esse exemplo. Me processe se quiser!

O chefe estava pouco se lixando pra tudo isso, mas sua rápida ascensão profissional o tornou uma pessoa arrogante e, como toda pessoa arrogante, ele se encheu de caprichos. Um desses caprichos era a total indisposição a tratar bem pessoas que entram batendo o pé em seu escritório.
Tobias e Rosane foram demitidos e um processo foi aberto. Contra ele, não ela. A câmera de segurança dos corretores capturou o momento em que Carlos picotava documentos de propriedade total da Agência.

- Ordem no tribunal! - gritava o juíz.

Hoje o lugar estava cheio. Dentre os presentes estavam Rosane, seus dois filhos, Sebastião, Rock, Tobias, dois policiais, uma enfermeira aposentada, monges, padres, o chefe e vários outros que ficaram sabendo da história e resolveram comparecer. Só Carlos não havia aparecido ainda, mas o júri resolveu parar de esperá-lo e começar logo.

- Tobias, você está sendo acusado e julgado pelo seu chefe por apropriação e despejo ilegal de propriedade exclusiva da companhia Agência de Direito. Está ciente disso?
- Sim, Meretíssimo.
- Me foi informado também que tudo começou devido a uma briga de rua entre garotos que terminou num julgamento mal-finalizado, uma tentativa de ação judicial negada e uma demissão não executada. É verdade?
- Sim, é tudo verdade. Se me permite, Meretíssimo, gostaria de incrementar também que tudo o que acaba de ser citado começou devido ao bom senso de um garoto ao recusar-se a insultar mortos e crianças.
- É, tô sabendo.

O juíz dá a permissão ao advogado do chefe, que imediatamente bombardeia Tobias com uma série de perguntas aparentemente infundadas, jogos psicológicos e confusões acometidas.
Ao término da bateria de interrogações, o juíz parece estar pensando em como proceder.

- Eu não posso condenar esse homem. Desculpem, mas vai contra os meus princípios. Podem me julgar se quiser, mas isso eu não faço. - ele diz isso tirando a peruca branca ridícula da cabeça e saindo de seu posto.

Subitamente, a porta se abre com um estrondo. Os policiais apontam armas para aquela direção, mas não atiram devido ao grande perigo que se apresentou.
Carlos está posicionado no meio do hall externo com um lança-mísseis sobre o ombro. Seu olhar é vidrado e lacrimejante. Suas mãos tremem e sua voz é falha.

- Eu sabia que isso ia acontecer! Eu sabia! Vocês são todos uns frouxos! Tudo o que eu queria era um mundo que funcionasse. Eu lutei por um lugar em que a justiça é cumprida a risca e essa coisa de opinião pessoal nunca valeria de nada. Mas não, vocês simplesmente não são capazes de seguir um pouco de ordem!
- Acalme-se, Carlos. - diz um monge budista que está presente - Não deixe a cólera dominá-lo. Libere suas tensões e sinta a energia fluir.
- Fluir é o caralho! Eu vou matar todo mundo!

Um silêncio pesado domina a todos os presentes. Pressionando um gatilho, Carlos mandará tudo para o ar, incluindo a si mesmo. Passam-se alguns segundos em que as pessoas se perguntam por que ele ainda não atirou e por que ainda estão vivas, mas ninguém tem coragem de falar nada.
Trêmulo, quem fala é Carlos.

- Eu... não... consigo.

E ele cai de joelhos no chão.

- Eu não consigo atirar. Eu não me sinto bem atentando contra essas pessoas que só quiseram fazer o bem. Me desculpem! - ele diz chorando.

Nenhum guarda quis prendê-lo. Todo mundo tem um acesso de raiva as vezes e merece uma segunda chance, eles disseram.

Ninguém percebeu a tempo, mas o mundo inteiro passava por processos semelhantes. Políticos paravam de roubar, sequestradores liberavam suas vítimas, agentes secretos jogavam fora suas pílulas suicídas, espiões empresariais se desculpavam publicamente. De repente, cada cidadão do planeta foi tomado por uma onda de bom senso. Cada um a seu tempo.

Isso acabou com o modo de vida conhecido. O mundo foi acometido por uma nova crise econômica mundial, dessa vez alcançando patamares incalculáveis e irreparáveis. O sistema não estava preparado pra isso. Era o fim de uma era.

Os únicos que se sobressaíram bem diante dessa grande crise foram as pessoas que verdadeiramente trabalhavam em prol de ajudar o próximo sem qualquer fim lucrativo. A ECA, Entidades de Crianças Aleijadas, cresceu e se tornou uma gigantesca organização que dividia em harmonia o espaço com vários outros grupos e fazia bolos de semana em semana.

No fim das contas quem se deu melhor com o novo cenário mundial foi uma pequena garota aleijada órfã, irmã de um clubber meio bobo.
E todo mundo ficou satisfeito com isso.