Por motivos sórdidos que posso até contar outro dia, faço aulas de tênis.
Não que eu não goste das aulas, não goste do tênis ou não goste do professor, mas eu definitivamente não sou o tipo de cara que acorda um dia e fala "Vou fazer aulas de tênis!".
Eu posso acordar com vontade de fazer muitas coisas, mas definitivamente nenhuma delas envolve esportes. Pelo menos não diretamente.
Mas, seja como for, eu faço aulas de tênis.
Hoje estávamos eu e meu pai sentados na arquibancada quinze minutos adiantados para a minha aula. O professor estava repassando saques para o aluno que vem antes de mim, eu estava lendo um livro (um livro muito bom, por sinal) e meu pai empreendia seu tempo com absolutamente nada. Hei que ele decide parar com isso e escolhe passar o tempo com a primeira coisa que lhe passa na frente.
- Me empresta esse livro?
- Mas pai... Não dá tempo de você começar a ler um livro agora.
- Tudo bem, eu só quero saber o que o meu filhinho está lendo.
Foi com muito desgosto que eu me desfiz daquela beleza literária, mas sim, eu o fiz.
Meu pai analisou a contra-capa do livro durante um tempo curtíssimo que eu tenho certeza que ninguém de mente normal conseguiria analisar um livro. Foi mais ou menos dois segundos. Aí ele largou. E largou do outro lado, oposto ao que eu estava.
E, com um olhar sereno de um homem de dezenas de anos de experiência, ele olhou para a cena dos saques a sua frente. Inspirou como quem vai dizer algo extremamente inteligente e útil, e disse.
- Pra sacar... Você tem que mandar a bola pra frente.
Em outras ocasiões eu teria visto isso como uma piada, mas a minha vida inteira de convivência com o homem me fez perceber que ele estava falando sério.
Por um instante pensei se eu tinha entendido errado, ou se havia algo extremamente sábio oculto por trás daquilo. Não havia.
- Pai... Você fez eu parar de ler pra me dizer que pra sacar tem que mandar a bola pra frente? - Assumo que eu tinha um certo tom de irritação na voz. Afinal, o livro é realmente muito bom.
- Eu só estava tentando ensinar alguma coisa útil pro meu filho... Mas tudo bem, desculpe. - E ele disse isso com um tom de melancolia, arrependimento e extremo desgosto.
Por um instante eu realmente considerei ficar com pena e voltar atrás. Aí reconsiderei.
- Tá desculpado. - Foi o que eu disse. E ele me devolveu o livro.
Sou um mau filho?